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CUIDADO COM O LOUVOR! Versão para impressão Enviar por E-mail

Estará a igreja em risco de andar à deriva por causa do louvor ?

  

 Por DAVID F. BURT , Escritor e Expositor bíblico ( ALETHIA, nº 19, Revista da Aliança Evangélica Espanhola, ano 2001)

O Povo de Deus vive numa constante tensão entre dois princípios complementares. Por um lado a necessidade de manter uma completa fidelidade à Mensagem do Evangelho. 2 Tess 2 : 2. e por outro lado a necessidade de crescer e de progredir, sem o que, fica árida e pobre. (...) Deve confrontar-se com novos desafios éticos, filosóficos e espirituais da sociedade em que se insere. Deve apresentar as verdades imutáveis do Evangelho eterno de formas criativas para um mundo em constante flutuação, e sempre retornar à Palavra de Deus para receber, sob o Espírito Santo, novas orientações.

Mas o princípio de renovação tem de ancorar-se sempre numa constante fidelidade a Deus e à sua Palavra, os quais não variam nem mudam. A análise da condição humana e o seu diagnóstico são sempre os mesmos em todas as gerações. A base da nossa Salvação é sempre a mesma. A forma de apropriação também : o arrependimento, a conversão, a Fé. (...) Neste sentido constato certas mudanças alarmantes nas nossas igrejas em Espanha, desde há uns trinta anos. Não são meras mudanças de estilo na forma dos cultos, mas uns "deslocamentos" teológicos subjacentes ao nosso entendimento do Evangelho (...).  

 
Os cânticos nos períodos de louvor têm vindo a ocupar um largo espaço nos nossos cultos ( nalguns casos mais de 50% do tempo ). É nesta área que se vê mais claramente os casos de evolução teológica. Para além de que é isso que configura a espiritualidade das gerações jovens. Hoje não há preocupação em aprender de cor fragmentos das Escrituras nem de dedicar tempo à reflexão sobre a Palavra divina. Ficam antes na memória as frases da última canção evangélica da moda, muitas vezes medíocres e de fundo bíblico duvidoso. Vou encontrando jovens que vão sendo formados pela música evangélica mais do que pela Palavra de Deus e cujas ideias espirituais são conceitos "super espirituais" que emanam do "louvor", que criam uma espiritualidade "mais além" e que não os ajuda a viver fielmente como discípulos de Jesus Cristo.
 
Houve um domingo em que estive numa igreja onde uma rapariga dirigia o louvor. Enquanto cantava alçava os olhos, levantava as mãos ao céu. Parecia emocionar-se entregando-se ao louvor. Só que havia um problema. Eu conheço essa moça e sei que está atravessando uma crise espiritual e moral. Pelo que me disse ela própria, nem sequer sabe se Deus é real. Há uns meses, num encontro, alguém pediu para cantar «Deus está aqui. Tão certo como o ar que respiro ...Podes notá-lo ao teu lado neste momento, podes senti-lo bem dentro do teu coração» ( trad. do espanhol ). No fim da canção perguntei aos jovens se alguma vez tinham notado que Cristo estivesse sentado ao lado deles. Ao dizerem-me que não, pedi-lhes que me explicassem como é a experiência de sentir Deus bem dentro do coração. Como fossem incapazes de fazê-lo questionei-os se alguma vez tinham «sentido» Deus de outra maneira qualquer, e adiantaram-me que não havia que tomar a canção ao pé da letra. E ficou nova pergunta : Que sentido faz cantar assim sem o tomar ao pé da letra... Noutra congregação contou-se uma outra canção predilecta : «Agora é tempo de louvar a Deus». A qual contém versos assim : «Concentra-te nele, começa a cantar e a sua presença descerá com poder». Quando tomei a palavra perguntei aos crentes como é que tinham notado a presença de Deus descendo com poder sobre eles. Foi o mais absoluto silêncio. E continuei interrogando por que autoridade podia afirmar que a concentração e o cântico são requisitos para obter essa experiência, sendo que a Palavra de Deus não ensina isso. Mas que asneiras cantamos por vezes ! Que autênticas sandices ! E o grave é que com isso proclamamos uma espiritualidade que não corresponde nem à experiência real nem ao testemunho bíblico. E estamos assim a ensinar aos nossos filhos um pseudo-cristianismo. E estamos a desviá-los do Evangelho, por causa do louvor. (...) Ninguém nasce de novo sem ser justificado dos seus pecados. Ninguém é justificado sem ser selado pelo Espírito Santo. Ninguém toma parte no Corpo de Cristo sem conhecer os dois : sem ser justificado e sem ser regenerado. É a «centralidade da Cruz» ( Cor 1 : 23; 2:2 ). Paulo não se gloriava noutra coisa que não fosse a Cruz de Cristo ( Gál. 6 : 14 ) ( ... )

Agora prega-se um Cristo que nos entende, que pode sanar a nossa vida e dar-nos uma nova razão de ser, um Cristo poderoso, capaz de solucionar todos os nossos problemas e fazer-nos felizes, um Cristo que nos oferece vida nova, e que nos baptiza no Espírito Santo... Tudo certo, gloriosamente certo, mas sob uma condição : que morramos de antemão com Cristo na Cruz. Ora, o certo é que cada vez mais se omite a Cruz, e com ela os outros aspectos como : o pecado, a santidade de Deus, o juízo vindouro, o inferno, a necessidade de arrependimento e de conversão, a confissão dos pecados, a contrição... E as últimas fornadas de canções evangélicas testemunham dessa ausência. Nessas músicas, que substituíram os hinos anteriores a morte de Cristo brilha pela ausência. Vejam só quantas são as que se centram na Obra redentora de Cristo ? Não há quase uma canção que mencione Cristo crucificado excepto nalguma frase "feita" que lá se pôs para a rima, por casualidade... (...) Quantas canções descrevem a luta contra o pecado ? Quantas referem a santidade de Deus e a miséria humana ? Quantas pedem perdão ? (...) Muita gente, cansada de uma ortodoxia fria e de um legalismo morto pôs-se em busca de vida espiritual, mas esquecendo-se da Obra redentora de Cristo. (...) A euforia criada pelo «grupo de louvor» foi o sucedâneo. E fica um culto superficial, fabricado pela dinâmica, e pelo ritmo da própria música. (...).

E os novos cânticos dos finais do séc. XX e princípios do séc. XXI centram-se no Deus de majestade, no Deus que reina, no Deus tremendo, (...) e dependem inevitavelmente da repetição de umas poucas frases e conceitos : «Louvamos-te, adoramos-te, exaltamos-te, magnificamos-te. És rei, estás sentado no trono, reinas com poder, reinas em majestade, reinas em glória, estás coroado, és o poder, o império, a glória, a majestade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, o louvor, és o alfa e o ómega, o princípio e o fim». Certamente que muitos destes termos são bíblicos e estão certos. Não estou dizendo que não se empreguem. Pelo contrário. Contudo são "mantras"(1) evangélicas com aparência de piedade mas sufocando o verdadeiro espírito de louvor. Tanta repetição provoca um ambiente de certo modo hipnótico em que as frases perdem o seu significado. A dinâmica do culto já não se sustém por um louvor inteligente e racional mas por uma espécie de salto místico criado pela emoção (...) Escasseiam hinos em forma de credo. Quer dizer, que abordem grandes verdades bíblicas da Fé e que sirvam ao crente para se firmar nelas. Hinos que nos exortem a sermos fiéis no meio das tentações e das provas, que nos avisem dos perigos. É o reducionismo(...)

Os hinos clássicos falavam daquilo em que cremos e das promessas das Escrituras. As canções actuais falam do que sentimos. Mais : de "sentir Deus" «Pai eterno, sentimos que estás aqui. Sinto o seu Espírito dentro de mim... tão perto que posso tocar-lhe. O meu Deus é real porque o sinto no meu ser». O louvor centra-se nos sentimentos. Não é mau a expressão dos sentimentos. O problema é quando estes vêm tomar o lugar da Fé. (...) Há muito de "feeling" (...) Vai-se formando uma geração de pessoas que são ignorantes dos hinos tradicionais e que recebem a sua teologia através das novas músicas (...) Naturalmente aquilo que estou descrevendo é uma tendência. Não é uma mudança radical já completa. De momento ninguém no meio evangélico está a negar os fundamentos da nossa Salvação. E sabemos que há igrejas ainda cuja teologia e cujo louvor estão firmemente enraizados na Palavra de Deus. Os hinos clássicos são compêndios autênticos, frequentemente, de sã doutrina ( embora também houvesse alguns textos "simplórios") que ajudavam o crente a edificar uma vida cristã equilibrada e inteligente. Hoje em dia encontramos cada vez mais gerações quase analfabetas ( = iliteratas ) quanto ao conhecimento do Evangelho(...) O culto ensinado pela Bíblia é racional... e deve fluir da nossa vida diária com Deus, da nossa vivência com o Senhor. A nossa adoração deve ser autêntica, corresponder com o que somos, com o que vivemos, e deve ser verdadeira, correspondendo a toda a Verdade revelada por Deus. João 4 : 23,24 «Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Porque o Pai procura a tais que assim o adorem.»

 

(1)Cânticos da literatura do sânscrito que entravam nos Vedas sagrados. Palavras repetidas em vistas de produzirem um determinado efeito.


 

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